Balaio de Siri

Textos variados,comentários, dicas,elocubrações, informações, enfim, de tudo um pouco. Balaio de Siri é em homenagem a um antiga moradora de Florianópolis. Ao puxar um siri, vem sempre um monte de dentro do balaio - o mesmo quanto aos textos:um assunto puxa o outro e assim vai...



Sexta-feira, Novembro 29, 2002


DONA LINA

Ela é tão magrinha que a impressão que passa é que bastaria um leve empurrão para vê-la cair. Sua pele é enrugada e áspera. Na boca, nenhum dente. Dito assim, friamente, parece que falo de um ser acabado, frágil. Nada disso. Basta olhar àqueles olhos, tão vivos quanto os de uma criança para perceber que nela há vida, muita vida. Seu olhar, às vezes malicioso, outros ternos, revelam uma mulher forte apesar dos seus 86 anos. Sua fala é cheia de imagens de um bom tempo. Há um mundo todo que ela carrega em sua memória. Há também mistérios. E há uma memória privilegiada. Dona Lina cita orações, rezas, textos que lembram a literatura fantástica. Ouvi-la rezar para Santa Catarina é como estar lendo um belo texto. É de um imaginário fantástico. Suas rezas são também um momento mágico. Que frases, que imagens! E me pergunto: de onde ela tira tantas maravilhas ao falar? Que mundo é aquele que ela transforma em palavras? Quem ensinou? Ninguém, ela diz, na sua candura. Foi ouvindo avós, pessoas que dela se aproximavam, que Dona Lina criou seu mundo. Um mundo tão mágico, tão primitivo, tão simples mas ao mesmo tão cheio de metáforas... É uma ladainha só, saindo de sua voz forte e suave ao mesmo tempo. Ela reza para suas santas, seus anjos, seus protetores. Santa é ela que lá, de sua janela da pequena casa onde mora, na Lagoa da Conceição, vê seu mundo visível mudar assustadoramente. Mas seu mundo interno, o das rezas, continua vivo, intacto, na sua prodigiosa memória. Ave Santa Dona Lina.

postado por: elaineborges 12:39 PM


TUDO PASSOU

João Libânio - Porto da Lagoa

Tudo se acaba.
Tudo passou.
Pra mim é ruim lembrar, porque eu penso que não foi,
que não passou, que ainda estou naquela época.
Sinto muita saudade.
A mocidade é tudo, vale tudo.

O CANTAR DO GALO

José Agostinho - Barra da Lagoa

Eu dizia que a minha mãe era feiticeira.
Mas não era. Ela era muito curiosa.
Ela sabia a hora direitinho pelo cantar do galo.
Quando o galo não cantava, ela ia no gato que estava sempre perto
do fogão à lenha, no quentinho.
No ressono, o gato dizia pra minha mãe as horas.
Hoje eu ainda vejo as horas pelo galo.

INVEJA

Damião - Sertão Grande

Quando eu era novo, eu ia para o mar.
Até hoje eu tenho muita vontade de remar.
Tenho uma inveja de ver os outros remando e eu não poder mais.

O SAL E O TEMPO

José Agostinho - Barra da Lagoa

Quando eu queria colher um pouco de feijão, e queria
saber como ia ser o dia, perguntava a minha mãe.
Ela pegava um pouco de sal, socava num pilão,
enfiava uma vareta e se aquela vareta não diminuísse,
levaria quinze dias pra chover, mas se
baixasse, em três dias ela dizia que ia chover.
O sal é feito da água e a água tem a solução pra dar o tempo.

LUZINHAS DE CANDIEIRO

Rosalina - Morro do Badejo

Naquele tempo, não havia radio,
era só aquelas luzinhas de candieiro.

O DEDO COMO BARÔMETRO

José Agostinho - Barra da Lagoa

Às vezes eu perguntava:
- Pai, eu quero ir para o mar, que tempo vai dar amanhã?
Ele saía da casa, lambia o dedo, botava pra cima e respondia:
- Amanhã vai dar vento sul.
O dedo dele era um barômetro.

SAUDADE

Carolina - Retiro da Lagoa

No outro tempo havia mais respeito.
A gente era tudo mais pobre, quem trabalhava, comia...
Tenho saudade daquele tempo.
Se voltasse aos vinte anos, eu ia brincar de
boneca, como brincava antes.

MUNDO DE DEUS

José Simão - Caieira

Já vivi nesse mundo de Deus todo.
De tudo já passou por mim.

SEM RETORNO

Carolina - Retiro da Lagoa

Ah, mas era tão bom!
Eu tenho saudade do tempo que a gente já foi.
Agora a gente não volta mais.

Os textos acima são do livro Vozes da Lagoa ( esgotado), escrito por mim e Bebel Orofino. Os depoimentos são de respeitáveis moradores da Lagoa da Conceição, nascidos nas primeiras décadas do século XX. Alguns já morreram, mas ficaram suas memórias.

postado por: elaineborges 12:28 AM


NOS MARES DE VÊNUS

Delicada, envolvente, a poesia de Miriam Portela é permeada de dores, suspiros, ausências, de descobertas do outro, de gestos incompletos, carinhos que ficam no ar, sem o retorno esperado... Amanhã quero te ver com os olhos nus/Apagar as pálpebras os sinais de ternura/quero te olhar com os meus olhos/ e não te ver nunca mais, diz em certo momento.
Seu mundo é cósmico, etéreo, onde os ventos, as estrelas, os mares, conchas, a terra, permeiam espaços longínquos, mas também próximos que nos levam aos movimentos dos corpos, ao tato, ao cheiro, à pele, aos suspiros, e às perdas, sempre elas. Miriam escreve como se vivesse em dois mundos, aquele que ninguém alcança e outro, de carinhos, mas também de muita dor pelo gesto mal compreendido. Há em sua poesia a descoberta do outro, mas também a dor da não correspondência da escassez da ternura Momentos de pequenas felicidades permeiam o Nos Mares de Vênus, escrito com delicadeza e cheio de sutilezas.

- O livro da Miriam vai ser lançado na segunda - dia 2 - às 19 horas, no Café Matisse, em Florianópolis - com direito à declamação de algumas poesias pela atriz Clarice Abujamra. Vamos todos lá, então.

postado por: elaineborges 12:09 AM


Quinta-feira, Novembro 28, 2002

ANDANÇAS

Nos últimos dias andei por esta Ilha em busca de personagens - pessoas que pudeseem me contar histórias sobre a ponte Hercílio Luz ( estava fazendo uma matéria para um livro sobre a ponte a pedido do Tarcísio Mattos) . Queria ouvir pessoas simples e descobri um mundo que poucos conhecem. Ali, debaixo dos pilares da ponte, moram pessoas simples... Seu João é um deles. Junto com sua mulher Maria e Bolinha, a cadelinha, ele mora numa casa bem debaixo de um dos pilares da ponte. É só caminhar um pouquinho e lá está aquela estrutura de ferro sobre suas cabeças... Uma ponte desativada, em eterna reforma, mas tão bela, tão harmoniosa em suas formas!... Dalí, onde moram João e Maria, ela se impõe, grandiosa...

postado por: elaineborges 11:25 PM


Quinta-feira, Novembro 14, 2002



Foi com uma imensa tristeza que vimos nosso cachorrinho morrer. Foram 14 anos de convívio com Leo, um cão inteligente, tranquilo, amigo, um grande companheiro. Ele morreu säbado ( dia 9) e desde então ainda estamos tristes com sua ausência.Quem gosta de animais, sabe a dor que sentimos ao perdermos um grande amigo de quatro patas. Leo era um deles.

postado por: elaineborges 12:41 PM


Leia abaixo a coluna do Veríssimo de hoje, publicada no Estadão. Quem gosta de ler, vai concordar com ele.
Preocupações

Luis Fernando Veríssimo

Sinto um misto de revolta e inveja quando ouço alguém dizer que está sem nada para ler. Com a cabeceira entulhada de livros que só terminarei de ler com 217 anos, se a luz for suficientemente forte, e já convencido de que nunca cumprirei meu modesto projeto de vida, que é saber tudo sobre tudo, sinto-me ofendido com a queixa insensata. Da próxima vez que um folgado me pedir uma sugestão de leitura, pretendo produzir uma fita bobinada com os títulos de mil livros que ainda não li, de A de Amis a Z de Zweig, e atirar na sua cabeça. O tempo para ler, como a renda, deveria ser melhor distribuído no mundo.
A revolta é a mesma com as pessoas despreocupadas. Aqueles inconscientes que, quando você pergunta como vai a vida, respondem "Maravilha!". Como, "Maravilha!"?! Nem banqueiro brasileiro tem o direito de dizer "Maravilha".
Se o que falta a esses contentes inexplicáveis é preocupações, eu tenho várias para fornecer. Ninguém diga na minha frente que está sem nada para se preocupar.
Você sabia que existem 36.000 armas nucleares estocadas e 432 reatores nucleares em funcionamento no planeta? Que o Bin Laden está provavelmente vivo e provavelmente planejando uma festa de Natal que nenhum de nós jamais esquecerá? Que mesmo se não for o banho de sangue que se teme, o ataque americano ao Iraque pode ter conseqüências que nem um preocupado como eu consegue imaginar? Que um partido fundamentalista islâmico de direita acaba de ser eleito na Turquia e que uma coisa que o mundo não precisa é de uma reedição do Império Otomano, desta vez com lança-foguetes? A contagem regressiva para o ano 2003 pode muito bem ser uma das últimas atividades humanas sobre a Terra até que as amebas resolvam começar tudo de novo.
Espero sinceramente que você tenha alguma coisa para ler na cama, já que espero também ter tirado o seu sono, pelo menos por esta noite.

postado por: elaineborges 12:35 PM


Sexta-feira, Novembro 01, 2002


AMIZADE MASCULINA

Lá fora a chuva caía, fininha...O vento, soprando do sul, dava a sensação de que estávamos novamente no inverno. Mas eu, no quentinho do cinema, me preparava para ver mais um filme de John Woo. Sabia que veria violência, sangue, muito barulho...Seus filmes são assim. Mas sabia também que ele contaria uma boa história. E não me decepcionei. Códigos de Guerra é um filme sobre a amizade. Bravos homens em guerra vendo crescer uma forte amizade entre eles. É um filme de muita ação, com fortes cenas de violência (tão fortes que uma senhora, sentada ao meu lado, não agüentou e saiu meia hora depois de iniciado o filme). Quem viu A Outra Face e M:1-2 sabe como são os filmes de John Woo. Vá sabendo que vai ver muito sangue jorrando. E se conseguir superar a violência decorrente de uma guerra brutal, perceberá que Códigos de Guerra conta uma bela história sobre a amizade masculina.

postado por: elaineborges 1:11 PM


JULIANA WOSGRAUS

À Luz da Lua é o mais novo livro da Juliana Wosgraus. É cheio de pequenas delicadezas, verdadeiros hai-kais, poesias simples, como suspiros baixinhos e silenciosos. Daqueles que vem lá do fundo da alma e que ninguém ouve. Veja este: "Vá lá que é bom/e depois... /...não dói?" . Ou este: "Não sou negra na pele/ como Cruz e Souza/ Mas tenho a alma retinta/ de sentimentos doídos". A edição, da Editora da UFSC, é também delicada, com ilustrações da Juliana - que é também artista plástica.

postado por: elaineborges 1:09 PM



arquivo