Balaio de Siri

Textos variados,comentários, dicas,elocubrações, informações, enfim, de tudo um pouco. Balaio de Siri é em homenagem a um antiga moradora de Florianópolis. Ao puxar um siri, vem sempre um monte de dentro do balaio - o mesmo quanto aos textos:um assunto puxa o outro e assim vai...



Quarta-feira, Junho 25, 2003


MILLÔR PERGUNTA:

Esse "Tenham calma", do Lula, não é o "Lenta e Gradual", do General Geisel?

postado por: elaineborges 1:49 PM


Terça-feira, Junho 24, 2003



À ESPERA DO FRIO

É tempo de tomar muito vinho, de enfrentar o vento sul que entra na nossa pele...Tempo do recolhimento, do silêncio, tempo também da tertúlia, tempo de ficar na cozinha ao redor do fogão ( pura saudades, fogão à lenha, só no interior do RGS), tempo de conversar tomando chá com leite, chimarrão, comer rapadura, milho assado...Tempo, tempo, tempo de lembrar... Mas não há frio, nem geada, nem neve. Faz calor, o inverno teima em não chegar ... E enquanto ele não vem ( tão bom quanto o outono) contento-me em olhar a bela foto da ponte Hercílio Luz, de Waldir Fausto Gil, tirada em 1958 ( capa do livro editado por Tarcisio Mattos - Tempo Editorial).

postado por: elaineborges 11:03 PM


Segunda-feira, Junho 23, 2003

QUARTETO DE ALEXANDRIA

Quando escrevi - alguns textos abaixo - sobre os livros que considero "bons amigos", citei especialmente o Quarteto de Alexandria. A única edição existente no Brasil veio de Portugal e jamais mereceu tradução por aqui. Pois agora leio na Folha de sábado que o Sena Madureira vai se aventurar nessa incerta profissão de editor. E, entre seus planos, está exatamente o de lançar aqui o Quarteto... Notícia melhor, impossível. E melhor ainda porque ele também vai publicar as poesias do grego Kavafis, citado com frequência pelos personagens do Quarteto. Quem ama poesia vai se deliciar. Leia trecho da matéria da Folha:

Para a série Nosso Reino Não É Deste Mundo já estão contratados trabalhos de primeira importância na literatura do século 20, como os romances "Quarteto de Alexandria", do anglo-indiano Lawrence Durrell, ou "Poesia Completa", com toda a obra do grego Konstantinos Kavafis.
Poesia, afirma Sena Madureira, será prioridade d'A Girafa. O gênero não é novidade para o editor baiano-carioca-paulistano. Na Imago, primeira casa que dirigiu, publicou o hoje celebrado livro "Bagagem", estréia da mineira Adélia Prado. Na Nova Fronteira lançou, entre tantos, o monumental "Cantos", de Ezra Pound.
"Editei pelo menos cem livros de poesia em dez anos de Nova Fronteira", diz o também poeta, autor de "Rumor de Facas" (Companhia das Letras).
Mas é à prosa que o editor prestou mais serviços, publicando autores como Thomas Mann, Italo Svevo, Robert Musil e Umberto Eco (pagou apenas US$ 1.000 pelo best-seller "O Nome da Rosa"), na Nova Fronteira, e como Hermann Broch, William Faulkner e John Cheever, na Siciliano, onde esteve nos últimos 12 anos. E a lista poderia seguir: Tom Wolfe ("Fogueira das Vaidades" saiu na sua breve e turbulenta passagem pela Rocco), Vladimir Nabokov (lançou a obra-prima "Fogo Pálido" na editora Guanabara) etc.
Não é só desses que Sena Madureira fala com orgulho -e essas listas de autores prestigiados, mas às vezes não vendáveis, é que lhe deram a fama de "cabeça nas nuvens" e inimigo dos departamentos comerciais das editoras. Foi ele também o editor de parrudos best-sellers como "Só É Gordo Quem Quer", auto-ajuda gastronômica de João Uchôa Júnior.
Mas não é apenas com estouros que se faz uma editora. "As tiragens no Brasil não são altas. Mas o editor brasileiro conta com uma fatia fiel, de 3.000 leitores. Já passei pelas piores crises da história do país. Nunca, apesar das agruras, vi um editor desanimar."
A Girafa começa animada. Sena Madureira já percorreu Londres, Paris e Nova York atrás de títulos e nessa última venceu o primeiro leilão da editora, arrematando "A Pílula da Liderança", do bem-sucedido autor de negócios americano Kenneth Blanchard.
A programação de base da editora, que pretende começar lançando quatro livros por mês, está pronta até maio de 2004.
Sena Madureira pôs os pés no chão? "Nada. Não mudei, só piorei", diz, soltando a fumaça do charuto e uma forte gargalhada.

postado por: elaineborges 5:17 PM


Quarta-feira, Junho 18, 2003

BONITO DE VER

Um casarão estilo português, em pleno centro da cidade, tem reunido o que há de melhor da música de raiz de Florianópolis. E no último sábado a festa foi de arromba. Lá estavam a Velha Guarda da Copa Lord, o grupo Bom Partido e ainda os mestres do chorinho. Os dignos senhores e senhoras da Copa Lord mostraram que a história da escola passa obrigatoriamente por eles. Elegantes e garbosos, sentados ao redor de uma mesa, tocando e cantando velhos sambas da escola e lembrando famosos sambas de conhecidos autores brasileiros, eles dominaram a festa. E, pra encerrar o grande dia, Elizah cantou com a Velha Guarda Batuque de Pirapora, uma das doze faixas do seu terceiro CD - que já vem sendo executada nas rádios de Florianópolis. Foi uma bela tarde de samba. E dos bons.

postado por: elaineborges 11:25 PM


MULHER COM DOIS HH

Um furacão passou por Florianópolis, deu uma chegada em Blumenau e voou novamente para Brasília. De óculos redondos, blusa branca, calça de brim, cabelo repuxado para traz, nada indica, por sua compleição física, que aquela mulher pequenina é um furacão, que rugi, esbraveja, solta fogo, espalha ventania, causa tempestades e faz tremer aqueles a quem ela dirige suas palavras certeiras, cortantes, duras... Heloisa Helena, a pequena senadora, cresce quando fala. Lá está ela, alerta, atenta... Sua arma é a palavra, as orações cheias de floreios, de citações bíblicas, de referências históricas, de comparações, metáforas... Da sua boca soam as frases mais duras contra o governo Lula, seu companheiro de partido e hoje o político a quem ela mais critica. Ouvir Heloisa Helena é perceber que há pessoas que tem o dom da fala, da palavra, e sabem usá-la com maestria. Da sua boca saem frases cortantes, bem feitas, brotam, jorram... Certa ou não, ouvi a voz da contestação, da crítica ao poder, e gostei de ver aquela pequena senadora brigando - talvez contra o vento - sempre com muita altivez.

postado por: elaineborges 11:12 PM



TERCEIRO NOME

Entre os pequenos prazeres da vida está o de folhear aleatóriamente livros. Ver as ilustrações, o cuidadoso projeto gráfico, as capas bem boladas, a distribuição do texto nas páginas, o tamanho das letras...Ultimamente as editoras têm caprichado nas edições dos seus produtos. Cativam o leitor pela beleza das edições... A editora Terceiro Nome vem se destacando exatamente pelo cuidado com seus livros. Tive o prazer de conviver em um fim-de-semana com Mary Lou Paris, proprietária da Terceiro Nome - num almoço regado a vinho, frutos do mar e - de quebra - um sol suave batendo nas águas da Lagoa da Conceição.
A revista ISTOE publica nesta ultima edição matéria sobre a Terceiro Nome, da qual transcrevo um trecho:

São apenas 25 títulos. Um número pequeno, mas a pequena editora Terceiro Nome vem se destacando entre as grandes, tal o tratamento dedicado a cada um de seus livros. No mercado desde 1998, a empresa dirigida e criada por Mary Lou Paris começou lançando o CD-ROM Brasil em foco ¿ um levantamento cultural do País, dividido por temas e regiões, trazendo textos de 104 especialistas em suas respectivas áreas ¿ e o elogiado Portinari devora Hans Staden, uma nova tradução dos diários do viajante e cronista alemão, feita por Angel Bojadsen, que, além das ilustrações originais do século XVI, tem como charme 26 desenhos inéditos criados pelo famoso artista natural de Brodósqui para uma edição americana que nunca chegou a existir.
Nesta semana, a Terceiro Nome está desovando nas livrarias mais dois lançamentos. Um deles é Allegro/tragicomédias ¿ delírios realismo ambiguidades (412 págs., R$ 38), reunião de 91 contos escritos pelo jornalista Fernando Portela e prefaciados pelo colega Humberto Werneck, com projeto gráfico de Guto Lacaz. O outro é O espírito dos lugares/l¿esprit des lieux (200 págs., R$ 80), que pela primeira vez reúne em livro o trabalho do advogado e fotógrafo Eduardo Muylaert, com projeto gráfico de Artur Lescher. São 119 imagens, 50 das quais estão expostas na Galeria Nara Roesler, em São Paulo.
Viabilizar idéias como estas faz parte do espírito da editora, que a cada projeto mobiliza pesquisadores, redatores, fotógrafos, ilustradores e artistas gráficos. A Terceiro Nome também prepara os próprios projetos, que, conforme a necessidade, são beneficiados pelas leis de incentivo cultural ou pelos patrocínios. Tal atividade faz parte do perfil de Mary Lou Paris, que tem mestrado em história e filosofia da educação pela USP, passagens pela Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), Museu da Imagem e do Som (MIS), Cinemateca Brasileira e pela Secretaria de Estado da Cultura.

postado por: elaineborges 10:37 PM


Sexta-feira, Junho 13, 2003



Sábado - imitando o Cesar - é dia de passear em Pântano do Sul e passar algumas horas curtindo toda essa beleza aí de cima ( nada impede também de comer tainha - prato que não me entusiasma muito - no restaurante do Arante).

postado por: elaineborges 10:57 PM




O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos

Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.

Alberto Caeiro

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

TEJO É MAIS BELO

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro

As poesias acima são apenas para lembrar o grande poeta Fernando Pessoa
que nasceu no dia 13 de junho e morreu em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos.

postado por: elaineborges 10:49 PM


Terça-feira, Junho 10, 2003

JORNALISTA CASCATEIRO

Vi alguns colegas, ao longo de minha profissão , com excessiva dose de arrogância e prepotência. Presenciei também cenas vergonhosas de jornalistas mais preocupados em tirar vantagem pessoal do que agir com ética e decência. Fui testemunha de cenas nada dignas de nossa profissão. Mas também tive orgulho de conviver - e ainda convivo - com colegas dignos, competentes e éticamente irretocáveis. O episódio envolvendo um jornalista cascateiro, mentiroso e indigno ocorrido no NYT - jornal de maior influência no mundo - faz pensar. O assunto é abordado por Zuenir Ventura na sua coluna ( NOMINIMO) da qual trascrevo um trecho:

Em suma, o episódio do repórter Jayson Blair, que além de tudo forneceu munição para a discriminação e o racismo pelo fato de ser negro (muitos correligionários de Bush devem estar dizendo: "mas também!"), significou uma grande decepção. Por outro lado, como disse lá em cima, foi benéfico, porque serviu como lição contra nossa tendência à presunção e à prepotência. Uma das coisas mais bem distribuídas em nossa profissão é a arrogância.

No seu editorial de auto-crítica ou mea culpa, o NYT lembrou que o jornalismo "é algo imperfeito". Tem razão: é um processo que exige incessante aperfeiçoamento, deve ser um constante aprendizado, um permanente exercício de humildade. O erro de hoje faz esquecer o sucesso de ontem. Um jornal pode ter 100 anos de existência, mas sua credibilidade dura 24 horas, ou seja, precisa ser renovada a cada dia. Um crédito perdido é muito difícil de ser recuperado, se é que é possível recuperá-lo. Talvez seja o capital mais difícil de acumular e mais fácil de perder. Em termos de televisão então, esse tempo se reduz a segundos, que é a unidade do veículo: a confiança pode ser perdida não em 24 horas, mas em segundos.

Ao lembrar os prêmios conquistados durante a gestão do diretor de redação Howell Raines e o editor-executivo Gerald Boyd, que pediram demissão em conseqüência do escândalo, o editorial diz: "Uma lista de sucessos espetaculares pode ter nos tornado pretensiosos demais, seguros demais de que o futuro simplesmente traria mais disso".

É essa a lição: no jornalismo, a humildade não é uma virtude, mas um antídoto.

postado por: elaineborges 3:05 PM


Segunda-feira, Junho 09, 2003


CHUVA E GEADA

O tempo cá pelo sul anda assim: chuva no litoral e muito frio na região serrana. Está gostoso andar pelas ruas de Florianópolis, curtindo o ventinho gelado no rosto. É assim o outono por aqui. Às vezes o céu fica o dia inteiro limpinho, todo azul. Em outros momentos a chuva vem, de leve, depois permanece por uns dias, gelando até a alma. Nada melhor do que parar numa livraria, tomar um bom cafezinho e folhear um livro. Ou sentar em outro, da rua Trajano, e ler o jornal do dia, sempre bebericando cafezinho ou chocolate quente. Em São Joaquim as temperaturas estão bem baixas, o gelo enfeita as árvores, as pessoas - turistas ou não -tomam muito quentão, chá de maçã e, ao redor das lareiras, há quem goste de ficar comendo pinhão. Comer pinhão é, no fundo, um ritual: o ato de descascar exige paciência. Na Ilha agora há outro grande prazer: comer tainha. Assada, no forno, ensopada...
Chove e faz frio cá no sul: é tempo de pinhão, tainha, quentão ou de apenas curtir a Ilha - deslumbrante, sempre.

postado por: elaineborges 6:51 PM



postado por: elaineborges 6:22 PM


postado por: elaineborges 6:21 PM



À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Nada mais caótico, barulhento, ruidoso e até mesmo maldoso do que uma reunião de várias mulheres em uma cozinha. Entre folhas de alface, chicória, massas, pedaços de galinha, tempêros e uma azáfama barulhenta, lá estão elas, com suas ácidas observações sobre outras - que naturalmente não fazem parte do grupo. Aliás, as mulheres adoram confabular, fofocar, desfiar seus discursos por vezes moralistas, sempre em grupo. Mulher se identifica com a outra, mas também não esconde as unhas afiadas se a outra destila algum veneno com endereço certo. Não pise no tapete, não emporcalhe o ambiente com tiradas venenosas demais. Alguem pode sair ferida profundamente. Melhor - nessa hora - partir para o humor mais leve, da imitação, das piadas sem maldade. Mas há também os momentos de duplo sentido, de frases com variadas interpretações. E há ainda o momento dos "panos quentes". Na cozinha cabe qualquer comentário. Fora dela, vale o silêncio, do nada aconteceu. A festa - aquela entre repolhos e alfaces e muitas gargalhada - acaba rápido. Tão rápido que é preciso marcar outro encontro para - novamente - contar outras piadas, mostrar as unhas afiadas, destilar pequenas gotas de veneno, mas também elogiar - se for o caso ( o que é meio difícil). Parece que, em reunião onde predomina a mulher, há sempre um tênue momento em que alguem vai ter um ataque de nervos. No entanto, posta a mesa, hora de usufruir o saboroso almoço, regado a bons vinhos. A calma volta a reinar. Até um novo encontro - também na cozinha.

postado por: elaineborges 6:15 PM


Domingo, Junho 08, 2003


OS LIVROS DA MINHA VIDA

Ao longo da vida há livros que considero indispensáveis. Vê-los na estante já são suficientes para me causar um grande prazer. Sei que, quando os li pela primeira vez, a sensação foi de deslumbramento, de descoberto...Havia neles personagens que, aos poucos, também passaram a viver no meu mundo. Era comum sair pelas ruas e ver passando a Justine, mais ao longe, perto do porto (em Porto Alegre) o excêntrico Balthazar... Passeando, ao largo, a suave Clea, acenando levemente para o amigo Balthazar que, sentado em uma mesa do bar, desfilava seus conhecimentos sobre cabala. Havia ainda Mountolive, o diplomata com sua paixão por Leila. Todos são personagens do Quarteto de Alexandria, do Lawrence Dürrel. Através da leitura desses quatro volumes fiz amizades, conheci gente excêntrica, poetas, escritores, artistas plásticos, jornalistas... Todos tinham em comum a eterna paixão pelo Quarteto...
Pensei no Quarteto ao ler a Veja desta semana. Sergio Paulo Rouanet está lançando Os Dez Amigos de Freud (Companhia das Letras). Nele analisa os dez livros apontados por Freud, atendendo pedido de um editor. Livros que ele chama de bons amigos. Eu lembrei que entre meus bons amigos está O Quarteto de Alexandria. Mas há outros: Cândido, do Voltaire ( absolutamente indispensável como leitura e releitura) e, mais recentemente, Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar. São livros marcantes - livros que dão prazer, enriquecem e nos acompanham por toda a vida.

postado por: elaineborges 12:06 AM


Quarta-feira, Junho 04, 2003

O MILAGRE DOS PEIXES

Os pescadores estão no auge. Há dias tem acontecido grandes lances de tainha ( "a rainha do mar", com disse um deles, entusiasmado). Há cerca de dez anos não acontecia tão belo espetáculo. Mais de 100 toneladas já foram pescadas. Dai lembrei da descrição de um dos mais antigos pescadores da Joaquina - Crispim Alexandrino Daniel. Seu Crispim nasceu no dia 25 de outubro de 1913. Morreu há cerca de dois anos. Conversar com ele era sempre uma grande viagem ao passado. Suas descrições sobre os grandes lances de tainha, a alegria incontida da turma, das famílias, dos amigos, vizinhos, todos correndo à beira do mar para ajudar a puxar a rede, a contar os peixes... Suas histórias "daquele tempo" constam no livro Vozes da Lagoa. Aproveitando o momento, trascrevo abaixo uma delas:

O MAIOR LANCE

Em 1964, demos um lance e matamos seis mil tainhas, lá
na Joaquina. Foi num domingo, no derradeiro de maio.
O mar estava manso, porque com maré alta não presta.
Às vezes tem vento norte, mas mar ruim, conforme a gira das águas.
Depende das águas, elas giram para o norte,
giram para o sul e às vezes ficam mansas.
Tem que conhecer isso tudo.
Naquele derradeiro de maio, amanheceu esse peixe lá.
Nós cercamos de manhã, o sol ainda não tinha saído.
Cercamos com duas redes, matamos seis mil e novecentos tainhas.
Quando eu tinha oito anos, mataram cem mil tainhas lá na
Lagoinha de Canasvieiras, e na Prainha contaram também
cem mil e não quiseram contar mais...
Salgaram muitas tainhas, escalaram, mas também enterraram muitas.
Dizem que no mesmo dia mataram na Lagoinha, mataram
na praia da Barra.
Na Lagoinha foi no início da semana e, na Barra,
no fim da semana.
A pesca da tainha chama muita gente...é mulher, é criança...
A pesca da tainha nunca fica velha,
sempre tem novidade pra se ver.



Ilustração - Polo Cabrera (do livro Vozes da Lagoa)

postado por: elaineborges 11:46 PM


ELIZAH, RONALDO E CACO BARCELOS

Os três aí de cima tem em comum a extrema capacidade de criar. Sensíveis a seu jeito, cada um produziu pelas obras que tive o prazer de usufruir. Vi o clip da Elizah dirigido pela cineasta Tânia Lamarca. Está bem legal, com a turma da Velha Guarda da Copa Lord - uma belezinha. A voz da Elizah é ótima. Já o meu amigo Ronaldo dos Anjos conseguiu terminar o seu filme Santo Mágico. A apresentação para convidados - e bobamente lá estava eu, no Cine York, de São José - estava lotada e todos aplaudiram no final. A fotografia - do Farkas - está ótima. E o galã do momento brilhou, o gaúcho Werner Schünemann (aquele da Casa das Sete Mulheres). E, finalmente, o jornalista Caco Barcellos que veio a Florianópolis à convite do nosso Sindicato lançar seu livro Abusado - sobre um famoso traficante do Rio e a comunidade do Morro Santa Marta. Foi uma bela aula de jornalismo e de ética. Enfim, os criadores estão aí - e nós usufruindo de suas criações.

postado por: elaineborges 3:10 PM


Domingo, Junho 01, 2003


BABY - A GATINHA

Há uma nova moradora na minha casa: Baby, uma gatinha bem fofinha, com pêlos brancos e pretos, não tem ainda três meses e é muito meiga. Finalmente minha decisão foi tomada: a gatinha é bem linda. Não tenho prática com felinos. Aos poucos, observando-a, percebo que são muito independentes mesmo. E educados. Rapidamente apreendeu o lugar da higiene pessoal e recorre a sua banheirinha com muita graça. Come em silêncio, bebe água sempre após a alimentação e já deixou claro que seu lugar predileto é o meu colo. Há apenas um probleminha: difícil escrever no computador com ela sobre os meus joelhos. Dispenso-a delicadamente, mas ela reclama. Aos poucos, estamos nos conhecendo.Breve publicarei sua foto.

postado por: elaineborges 9:22 PM




Danuza Leão, na sua coluna hoje na Folha de S.Paulo diz que não há ninguem mais feliz do que Lula e a Marise. Os jornalistas - que o entrevistaram nesta semana - também constataram que o presidente esbanja felicidade. Feliz por que, pergunto eu? O desemprego está nas alturas, há polêmicas quanto às reformas propostas, a criminalidade não diminuiu, a fome zero está fazendo água... A foto publicada na Veja diz bem da felicidade do presidente. Bom, resta continuar sem medo de ser feliz e com esperanças renovadas....

postado por: elaineborges 9:09 PM


FALSO PARAÍSO

Florianópolis está cada vez mais próxima do ideal imaginado por pessoas que param de trabalhar e querem aproveitar a vida com conforto, belas paisagens, segurança e bons serviços. A capital catarinense já dispõe de serviços de primeira qualidade, além de gastronomia requintada e lazer variado. A afirmação é da revista Veja. Em extensa matéria a revista diz que os aposentados do Brasil estão optando morar em Florianópolis, por ser uma cidade tranqüila com os serviços de grande centro urbano que preservou certo charme interiorano. Apenas faltou dizer que a cidade mantem um elevado índice de homicídios; há brigas de gangues nos morros que circundam a Ilha; os jovens, entre 15 e 25 anos, são as maiores vítimas do tráfico de drogas; estamos nas estatisticas de capital com alto índice de sequestros (leia IstoE desta semana)...
É claro, Florianópolis é belissima, o povo é gentil, bonito, as paisagens são de tirar o fôlego e eu mesma não canso de olhar ao meu redor, quase sempre deslumbrada com o que vejo. Mas, por favor, o paraíso não é aqui. Sei de vários paulistas que vieram, moraram algum tempo na Ilha ( em especial na Lagoa da Conceição) e, passado o primeiro impacto, retornaram.
Aqui, diz a prefeita Angela Amin, é a Miami brasileira. No entanto, são esses novos moradores que tem colaborado para que a ocupação do solo seja uma das mais desorganizadas. A depredação do meio ambiente é visível. Há praias poluídas, o sistema hospitalar é deficitário, sem leitos suficientes para atender a demanda...
O setor imobiliário - com certeza o que mais lucra com o crescimento da cidade - pretende construír mais quatro shoppings, mas já há um sinal de alerta no ar: e o trânsito, e a infra-estrutura viária, o sistema de água e esgotos, suportarão novos empreendimentos?
Há dúvidas sobre os benefícios que a cidade usufrui com tanta gente optando por morar aqui sem que Florianópolis tenha se preparado para tão rápido crescimento.

postado por: elaineborges 8:57 PM



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