Um balaio onde tudo cabe: comentários sobre livros, filmes,discos,política,notícias em geral...Balaio de Siri é em homenagem a uma antiga moradora de Florianópolis que gostava de pegar siri na Lagoa da Conceição.
Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007
PROIBIDO CRITICAR
Por este texto abaixo (que apenas hoje tomei conhecimento) o escritor e jornalista Fábio Brüggmann perdeu seu emprego na Fundação Catarinense de Cultura. Soube do fato através de amigos e daí a publicação no blog com bastante atraso. Mas vale reproduzir. É mais uma prova de que cá na Ilha a defesa dos interesses do forte esquema mídia/governo/empresários tem impedido que vozes dissonantes sejam ouvidas. É proibido criticar. Ou seja, pode criticar, mas as portas se fecham quando está em jogo a defesa dos interesses dos poderosos - que são muitos.
Nas "lições" do Brüggmann ele relacionou, com ironia, o que fazer para destruir mais ainda este belo recanto - belo, ainda, mas agredido, explorado, ameaçado.
postado por: elaineborges 11:01 PM
COMO DESTRUIR UMA ILHA EM VINTE LIÇÕES
Por Fábio Brüggemann
(publicado no Diário Catarinense em outubro de 2006)
Existem pessoas que constroem cidades, outros preferem destruí-las.
Como em breve haverá um novo plano diretor para Florianópolis, vai aqui
minha sugestão para facilitar a destruição, mesmo que já tenha sido
iniciado o processo.
1) Habite uma ilha, mas de costas para o mar. Afinal, você ficará
cego de tanto vê-lo que, continuar olhando para ele, será um suplício.
Depois de alguns anos, "se faça de moderno" e transforme toda a orla urbana
- inclusive a das lagoas - em estacionamentos para automóveis, e vá tomar
café nos postos de gasolina.
2) Esqueça, de forma solene, a cultura produzida pelos moradores, a
começar por destruir todo seu patrimônio material e imaterial, colocando
abaixo todo o casario histórico (para quê manter casa velha?) e construa
¿prédios funcionais, modernos" . Deixe que intelectuais, arquitetos,
urbanistas, engenheiros e especialistas falem o que quiserem, eles costumam
não entender nada disso.
3) Como "essa gente" faz muita porcaria, construa um imenso merdário
bem na entrada da cidade, para que turistas e a própria população sinta
todos os dias o cheiro daquilo que sabem fazer muito bem.
4) Depois encha a cidade de estátuas extemporâneas e esquisitas,
como aquela em homenagem à Polícia Militar, carinhosamente apelidada de "no
meu não". Ao lado do merdário, finque bandeiras enormes. Lindo!
5) Gaste uma fortuna na construção de um complexo - mas complexo
mesmo - de terminais urbanos que fazem qualquer viagem ficar mais lenta do
que antes da construção deles. Não dê ouvidos àqueles "malas" que insistem
em achar que investir em transporte marítimo, só porque se habita uma ilha,
dará resultado.
6) Aterre todas as orlas, pelo mesmo motivo já citado. Afinal, é
muito mar que tem por aí. Precisamos mesmo é de terra e espaços para os
benditos automóveis que são a razão essencial de nossas vidas.
7) Depois de aterrar orlas e baías, convide alguns dos urbanistas e
paisagistas mais importantes do mundo para que façam um projeto de
urbanização do aterro. Quando estiver tudo pronto, destrua tudo e coloque
ônibus, muitos ônibus, para fazer "NÃO" funcionar aquele complexo citado
acima. Para acabar de vez, construa um grande Centro de Eventos cuja
arquitetura , além de tapar a pouca vista do mar, é bem parecida com a do
merdário citado antes.
8) Asfalte todas as ruas do centro histórico. Afinal, o turismo
depende apenas sol e areia! Amplie a velocidade dos carros e permita o
aumento da poluição sonora e estimule os acidentes. Ninguém vai à Europa
para ver sua cultura e sua história, ou seus museus. Essa gente gosta mesmo
é de ver carros, muitos carros. Para os subdesenvolvidos o carro é o
símbolo da modernidade! Portanto, a cidade deve ser planejada apenas para
os carros!
9) Reconstrua os pilares do Mítico Miramar, pinte de cor de rosa e
deixe tudo inacabado. Afinal, aqui também tem construção nova que já é hoje
uma ruína .
10) Construa centros de compras (e os chame colonizadamente de
shopping pois somos todos ingleses ao que parece) bem em cima dos mangues.
Ninguém precisa daquele ecossistema cheio de feias garças, caranguejos e
que de nada serve na hora de comprar roupinhas de 200 reais, vindas do Bom
Retiro, em São Paulo, por apenas 25..
11) Construa casas penduradas nas enconstas das lagoas e dos morros
próximos ao mar e desmate tudo em volta, para que não se tenha mais nenhum
vestígio de natureza, antes que outro construa a sua também e desmate e
tire a sua visão privilegiada. Cidade moderna é asfalto.
12) Desmate tudo, aterre e negocie com a Câmara de Vereadores a
ocupação de áreas de preservação permanente por empreendimentos que
privatizam a paisagem e os acessos às praias. Vereadores são sempre
acessíveis a bons negócios.
13) Evite o incentivo aos esportes adequados ao clima e geografia da
ilha, tais como o vôo livre, a pesca, a vela, etc., e permita a ocupação de
áreas de abastecimento de lençol freático por empreendimentos imobiliários
voltados a esportes praticados há anos na Ilha e adorados pelos seus
habitantes, como o golfe, por exemplo.
14) Como a Ilha dos Aterros já tem parques demais, doe os parques
municipais de preservação para a iniciativa privada explorar os recursos
naturais a serem protegidos e as áreas de terra para especulação
imobiliária, assim como o parque Sapiens e o Parque do Rio Vermelho -
Aliás, um parque de pinos elliotis - vil floresta ¿ (árvore daninha à nossa
fauna, flora, lagos e insetos) - semeado em toda a Ilha, sobrepõem-se aos
garapuvus, para depois alimentar e justificar a volúpia da Câmara Municipal
de transformar áreas de preservação de espécies nativas em próprias para o
(corte e edificações).
15) Ignore os argumentos de técnicos e ambientalistas que só querem
impedir o progresso da cidade e utilize as estruturas de instituições
públicas para persegui-los até que abram mão das bandeiras
preservacionistas e se mudem de cidade e de Estado. Essa conversa de meio
ambiente não interessa para o crescimento dos nossos negócios imobiliários.
16) Construa novos e luxuosos prédios, bem altos, cada vez mais
perto do mar, sem saber pra onde vai o esgoto, e os venda pra milionários
de qualquer lugar do mundo, e depois coloque a culpa nos que vêm de fora
pela ocupação desenfreada da ilha.
17) Deteste quem pensa um pouco no futuro (em desenvolvimento
sustentável) e daqueles - mesmo ciente de que um dia vai morrer - que acham
que seus filhos e netos merecem uma ilha um pouco melhor. São alienados.
18) Seja moderno e diga de boca cheia não aos "Ecochato". É muito
chique ser contra os ecochatos. Prefira ser um brilhante ecoburro, que é
também muito moderninho.
19) Asfalte ruas que não têm nem nome ainda, nem esgoto. Afinal, o
que não aparece não dá voto. E o voto é a razão de tudo ora essa!
20) Como você sabe que nada vai melhorar, vá embora de Florianópolis
e não lute contra a burrice humana.
postado por: elaineborges 10:37 PM
Terça-feira, Fevereiro 27, 2007
FIM DA TEMPORADA
(foto: elaine borges)
Fim da temporada de verão, Florianópolis retoma seu ritmo normal, as aulas na rede estadual de ensino recomeçaram na segunda e agora é hora de fazer o balanço: como foi a temporada? Para os comerciantes faltaram turistas com mais grana. O movimento foi intenso nas praias, mas há queixas quanto ao consumo. Nem todos os turistas foram às compras, embora os hotéis permanecessem praticamente lotados nos três últimos meses. Fim da temporada também reforça a triste constatação de que a Ilha de Santa Catarina continua com seus graves problemas: falta de saneamento básico, ocupação desordenada do solo, trânsito caótico, praias poluídas... Ainda na última semana a Fundação do Meio Ambiente divulgou seus rotineiros relatórios sobre o número de praias poluídas e impróprias para banho: são mais de 50. A poluição já atinge até praias freqüentadas pelos chiques da região, como a Praia Brava, no norte da Ilha, onde a água potável também chega a faltar por excesso de ocupação e total falta de planejamento. Há mais de vinte anos técnicos da Fatma colhem rotineiramente amostras de água das praias ao longo do litoral catarinense para mapear os trechos impróprios para banho. E nesse período pouco foi feito para resolver tão grave problema. Os prefeitos culpam o governo estadual e este se queixa do governo federal e enquanto isso aumentam os problemas que atingem a população: as praias continuam poluídas, a mortandade dos peixes aumenta, surgem doenças de pele, diarréias, hepatite...e por aí vai. Há ainda a violência urbana. É claro que por aqui a violência nem se compara ao que ocorre no Rio, por exemplo. Dados da Polícia Militar publicados no Diário Catarinense indicam que houve uma queda no percentual de assassinatos na região da Grande Florianópolis e no Balneário Camboriú. Em Florianópolis diminuíram 37% e em Camboriú, 47%. Explicação das autoridades policiais: mais policiamento nas ruas, mais investigação e "harmonia" entre os traficantes. Ou seja, enquanto as gangues agirem "harmoniosamente" estaremos em paz. Pode? Quanto ao policiamento nas ruas, balela: na Lagoa da Conceição eles sumiram.
postado por: elaineborges 3:10 PM
Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007
MISTERIOSA
(foto:elaine borges)
Esta flor é uma raridade. Abriu à noite e no dia seguinte já estava murcha. Não sei o nome, mas é belíssima.
FUNERAL BLUES
O grande poeta inglês W.H.Auden nasceu em 1907 e hoje completaria cem anos. Em sua homenagem reproduzo aqui ( o que já fiz incontáveis vezes) o poema Funeral Blues. Quem viu o filme Quatro Casamentos e Um Funeral certamente vai lembrar da famosa cena, quando o personagem Simon Callow lê este poema no enterro do seu namorado. O filme é de 1994 e foi um grande sucesso na época. Desde então W.H. Auden é citado por todos os que amam poesia. E este poema em especial é um dos mais belos que conheço. Auden figura na minha lista entre os melhores poetas da literatura contemporânea.
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
Que ficou assim na tradução de Nelson Archer:
Que parem os relógios, cale o telefone.
Jogue-se ao cão um o osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima e em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto - um laço no pescoço.
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu Norte, Sul, meu Leste, Oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar estrelas - são molestas,
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
postado por: elaineborges 10:07 PM
BEM BOM
Florianópolis, média de 25 graus, ventinho gelado em pleno carnaval, o suficiente para esfriar muito o ânimo dos foliões. Não foi o meu caso. Curti muito esse tempinho. Passatempo: ler, ver TV, filmes, ler, ver TV, filmes, ler, ver TV, filmes, ler...E, muito raramente, espiar o movimento, mas de muito longe. O suficiente para concluir que minha opção - ficar longe dos agitos carnavalescos - foi a mais agradável: li, vi filmes, vi televisão... Ah, e comi saborosas refeições. Bem bom.
postado por: elaineborges 12:45 AM
PRETA COM MUITO ORGULHO
Eu me considero hoje num lugar muito adequado pelo que eu sou. Sou uma mulata, brasileira, filha de preto com branco. Eu me chamo Preta e estou na Sapucaí.
E mais: Sou uma mulher brasileira, eu tenho estria sim, tenho celulite sim, como muitas têm, e não têm a oportunidade de estar aqui.
De Preta Gil, que desfilou domingo como madrinha da bateria da Mangueira, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio.
Viva ela!
postado por: elaineborges 12:17 AM
Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007
UM OUTRO CÉU
(foto: claudio régis)
Lá de cima, no seu parapente, meu amigo Claudinho fez, meio sem querer, seu auto retrato, planando sobre Videira, cidade que fica no meio-oeste de Santa Catarina.
E também registrou a cidade aos seus pés (literalmente):
(foto: claudio régis)
postado por: elaineborges 3:28 PM
Terça-feira, Fevereiro 13, 2007
A DOR DE TODOS NÓS
A dor de uma mãe diante da morte de seu filho é também a nossa dor. Mas a morte de um menino de forma tão bárbara, tão cruel aumenta ainda mais a nossa dor. A morte do menino João Hélio é daquelas mortes que nada, palavra nenhuma, serve como bálsamo para uma mãe. Diante de tanta dor, também choramos, também nos revoltamos. Nosso país está eivado de cenas de barbárie, de crueldade, de injustiças. Por isso fiquei em silêncio. Fechei o Balaio e, quieta no meu cantinho, pedi por um milagre. Que um dia nosso país ofereça aos seus filhos o pão de cada dia, educação, uma justa divisão de riquezas para que a barbárie não tome conta de tantos que nada têm e resolvem tomar pra si pagando qualquer preço. Até a morte de um pequeno menino de apenas seis anos.
postado por: elaineborges 9:58 PM
(reprodução pintura de Antônio Carlos Maciel)
NARCISO E NARCISO...
de Ferreira Gullar
Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.
Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.
O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.
A poesia acima recebi da amiga Ingrid e gostei. A pintura é de Antônio Carlos Maciel, um dos mais admiráveis artistas plásticos do sul que, após viver alguns anos cá na Ilha, retornou à Porto Alegre. Ele foi um dos que bem soube captar a luz da Ilha de Santa Catarina.
postado por: elaineborges 8:04 PM
Sábado, Fevereiro 03, 2007
DOIS MOMENTOS
(fotos: elaine borges)
Tarde de sábado: 17h15m, 29 graus, Lagoa da Conceição.
postado por: elaineborges 6:58 PM
Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007
HOUVE UM TEMPO...
(foto: elaine borges)
Houve um tempo em que meu notebook era essa delicada maquininha: uma Hermes Baby que vinha numa caixinha, com teclas leves, fácil de usar. Eu, dedógrafa, cansei de bater nas teclas com a maior rapidez possível para cumprir com minhas pautas. E são nesses momentos de quase nostalgia que constato que nossa profissão está desfigurada, até decepcionante. Coberturas distorcidas, noticiários muitas vezes reduzidos às fofocas, sensacionalismo. Ali está retratado um mundo que, muitas vezes, está fora do nosso mundo real. Ultimamente, por exemplo, cá no meu país, o tema mais em evidência é a eleição do presidente da Câmara dos Deputados, que está acontecendo neste momento. Seria um momento nobre, da prática da democracia no seu mais alto nível não fossem o achincalhe, as falcatruas, o corporativismo de uma instituição cujos eleitos estão no poder conduzidos pelo povo, mas legislam de costas para o povo. Mas esse parece ser o mais importante assunto da mídia. O noticiário que leio ou vejo é tão afastado da real vida da sociedade! Às vezes parece que está tudo desconectado, fora dos eixos: nós, o povo brasileiro, cá embaixo, eles, os políticos, lá em cima, pairando num mundo irreal, lá deles, distante, muito distante das nossas vidinhas do dia-a-dia.
Por isso, tomo a liberdade de transcrever a crônica do jornalista Elio Gaspari publicado na edição de ontem do jornal A Notícia, de Santa Catarina. Penso, como ele, que muitas vezes é melhor exaltar a vida de nossos tão maravilhosos amigos quadrúpedes, como gatos, cachorros e os tão dignos e magníficos cavalos:
Aldo e Arlindo: os bípedes redundantes
Elio Gaspari, jornalista
Amanhã, felizmente, termina a disputa entre as poderosas candidaturas de Aldo Rebelo e Arlindo Chinaglia à Presidência da Câmara. É um páreo de bípedes redundantes, de pouca relevância, numa semana em que o mundo perdeu Barbaro, um quadrúpede de três anos, com seis corridas e seis vitórias. Valeu US$ 30 milhões. Era uma boa aposta para a conquista da tríplice coroa dos prados americanos, um título intocado desde 1978.
Animal esplêndido, Barbaro foi sacrificado na segunda-feira, 254 dias depois de ter quebrado uma perna enquanto corria diante de 118 mil pessoas. Uma história de sofrimento e carinho. Suas chances eram de 50%. Passou por três longas cirurgias e 27 parafusos de titânio. A fratura cicatrizou, mas Barbaro foi derrubado por uma infecção nos cascos, e muita dor. Não conseguia ficar de pé. ¿Era outro animal¿, contou o cirurgião que cuidou dele.
Tristeza igual, só em 1975, quando Ruffian, égua invicta, quebrou a perna perto da última milha de Belmont Park. Ela ainda correu 50 metros. (O jornalista Sérgio Figueiredo via o páreo na social.) Ao contrário de Barbaro, Ruffian foi sacrificada no mesmo dia. Quando as ações dos bípedes se tornam um pastel de redundâncias eqüinas, a dignidade dos quadrúpedes os torna figuras muito mais interessantes. Como o grande Seabiscuit (1933-1947), Barbaro haverá de ser imortalizado em livro e filme. Tem lugar na galeria onde estão Secretariat, Traveller, Comanche e o inesquecível Trigger. Trigger, montaria do vaqueiro Roy Rogers, está empalhado no museu que conserva a memória do ator e alegrias de infâncias de outrora.
Comanche foi o único sobrevivente do combate de Little Bighorn, durante o qual os índios dakotas e cheyennes liquidaram o general George Custer e outros 208 soldados, em 1876. É provável que tenham largado o animal na pradaria porque estava arruinado por um tiro e flechadas. Dias depois, a cavalaria o levou para um quartel. Ninguém voltou a montar Comanche. Símbolo do massacre, sua história deu um toque romântico à posterior matança dos índios. Viveu no ócio até os 29 anos, com uma queda pela cerveja, e foi sepultado com honras militares. Sua carcaça, exposta num museu do Kansas, é o que resta da inépcia de um general insano.
Traveller, a montaria do general Robert Lee durante a Guerra Civil americana, está enterrado perto do dono. Lee gostara do bicho, mas não o aceitou como presente. O general não trabalhava com verbas indenizatórias e só ficou com ele porque pagou US$ 200. Barbaro caminhava para se tornar o substituto de Secretariat (1970-1989), na condição de cavalo-celebridade: campeão, rico e bonito. Talvez repetisse a façanha do antecessor, que tirou o 35º lugar na lista dos grandes atletas americanos do século passado. Evidentemente, era o único quadrúpede. O hospital onde Barbaro lutou pela vida recebeu mais de US$ 1,2 milhão em doações, inclusive uma de 19 centavos, vinda de uma menina. Na manhã de segunda-feira havia uma mulher no saguão do hospital onde estava o bicho. Quando ouviu que Barbaro havia sido sacrificado, ela foi embora. Disse que ia para a companhia de seu cavalo.
postado por: elaineborges 4:51 PM
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